sábado, 25 de fevereiro de 2012

O curioso cargo de "representante territorial de cultura". Pré-requisitos "atuação em sindicatos, partidos e organizações da sociedade civil"

A erosão do Estado

BRASÍLIA - Uma repartição na Bahia decidiu contratar nove pessoas para o curioso cargo de "representante territorial de cultura". Entre os pré-requisitos estava a "atuação em sindicatos, partidos e organizações da sociedade civil".
O despautério foi noticiado pela mídia. O governador da Bahia, Jaques Wagner, do PT, abortou a operação. "Achei um absurdo, injustificável", disse. Como consequência, foi demitido um dos responsáveis diretos pela tentativa de oficializar o aparelhamento do Estado.
Esse episódio é exemplar da erosão dos valores e do senso comum dentro do Estado. O "aparatchik" do PT baiano só escreveu o edital de contratação exigindo atuação partidária porque se sentiu à vontade. Um bípede com Q.I. acima de 60 sabe que numa democracia é impróprio exigir de um servidor público que se filie a um partido político.
Porteira arrombada, cadeado nela. O governador Jaques Wagner achou um absurdo. O responsável direto foi demitido. Muito bem. Só que a história não fecha. E quem explica o ambiente propício no governo baiano para se criar constrangimentos como esse? Claro, porque a última coisa que se poderia imaginar é que um integrante do governo da Bahia tenha tirado apenas de sua cabeça a ideia de exigir filiação partidária de novos contratados.
Em política não há ingênuos. Todos sabem muito bem como tais coisas acontecem. Não é de hoje nem de ontem que políticos contratam apaniguados para incrustá-los na máquina pública. Essas cracas sempre existiram.
A novidade agora é a sem cerimônia de tentar dar um ar de legalidade a algo ignóbil. Essa deterioração do Estado tem sido constante e gradual. A volta do país à democracia civil em 1985 não conseguiu por um freio nesse péssimo hábito. A chegada do PT ao poder central e em alguns Estados seria uma novidade. Não foi. O fracasso prossegue.

 Fernando Rodrigues/ Folha /Opinião

O ensino superior no Brasil está parando de crescer

Barreira da qualidade
SÃO PAULO - Em artigo publicado na quinta-feira, o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, revela que o ensino superior no Brasil está parando de crescer.

Utilizando-se de dados do Inep, Brito mostra que, de 1995 a 2005, o setor vivia uma expansão acelerada: o número de alunos aumentava 13% ao ano nas instituições privadas e 11% nas públicas. De 2005 a 2010, porém, houve uma significativa redução nesse ritmo: as particulares cresceram 4,5% ao ano, e as oficiais, 0,2%.

A situação fica pior se tomarmos como medida os que se graduam. Aí houve uma inflexão: o número de estudantes que concluíram o curso em 2010 foi menor do que o de 2007.

Para Brito, um dos fatores a explicar esse quadro é o fraco desempenho do ensino médio. A virtual universalização da escola fundamental ao longo dos anos 90 fez muitos especialistas prognosticarem uma explosão de matrículas no ensino médio, mas ela não ocorreu. Na verdade, o total de alunos que pegaram seu diploma de ensino médio em 2010 foi menor do que o de 2003.

A minha hipótese para o fenômeno é que o sistema de ensino se chocou contra a barreira da qualidade. Para o aluno avançar numa faculdade, ele precisa estar minimamente preparado. Se não está e sabe disso, nem se matricula. Se não sabe, começa o curso, mas acaba desistindo.
Caso o Brasil queira progredir mais, precisará resolver o problema da qualidade, que, apesar de uma lenta evolução, ainda é muito baixa. No último Pisa (2009), o exame internacional de desempenho de estudantes, ficamos em 53º lugar entre as 65 nações avaliadas.

E não há dúvida de que o país precisa, com urgência, aumentar sua população com diploma universitário. Por aqui, a taxa bruta de escolarização no nível superior é de 36%, contra 59% do Chile e 63% do Uruguai. Isso, é claro, para não mencionar países mais desenvolvidos, como EUA (89%) e Finlândia (92%).
 Hélio Schwartsman/ Folha de São Paulo

Primeira pedreira na contra mão do moço que quer ser prefeito de São Paulo


 Serra decide entrar na corrida à prefeitura e pode disputar prévias

Ex-governador diz que disputa interna 'deve ser respeitada' e discute com PSDB detalhes para lançar sua candidatura 

Alckmin convoca pré-candidatos para conversar sobre novo cenário em SP após reunião com o tucano


O ex-governador José Serra decidiu entrar na corrida à Prefeitura de São Paulo e admite a possibilidade de se inscrever nas prévias convocadas pelo PSDB para definir o candidato do partido.

A decisão foi comunicada ontem ao governador Geraldo Alckmin após meses de indefinição no maior partido de oposição do país, que teme perder para o PT nas eleições deste ano a hegemonia política que tem em São Paulo.

Alckmin e o prefeito Gilberto Kassab (PSD) se reuniram ontem à noite com o ex-governador em sua casa para discutir os detalhes do lançamento de sua candidatura.

Serra não quer que as prévias convocadas pelo partido sejam canceladas, para evitar o desgaste político que sofreria se fosse indicado candidato passando por cima do processo definido pelo PSDB.

As prévias estão marcadas para o dia 4, daqui a uma semana. Uma das possibilidades em estudo é o adiamento da disputa interna, para que Serra tenha tempo de entrar no processo partidário.
Quatro candidatos estão inscritos para participar das prévias do PSDB: os secretários estaduais de Cultura, Andrea Matarazzo, Meio Ambiente, Bruno Covas, e Energia, José Aníbal, e o deputado federal Ricardo Tripoli.

Alckmin começou a chamar ontem à noite os pré-candidatos para conversar. Aliados do governador acreditam que Matarazzo e Covas devem desistir da disputa. Aníbal e Tripoli têm dito que estão dispostos a manter suas candidaturas até o fim.

Na noite de quinta-feira, Serra disse a Alckmin que as prévias "devem ser respeitadas" e se mostrou "receptivo" à ideia de entrar na disputa, segundo pessoas familiarizadas com as negociações.

No encontro de ontem com Alckmin e Kassab, Serra confirmou a disposição de se candidatar e deixou claro que prefere disputar as prévias.

Serra, que no início do ano dizia não ter interesse em concorrer, mudou a conversa depois que Kassab começou a negociar seu apoio ao ex-ministro da Educação Fernando Haddad, do PT.
Serra queria ficar livre até as eleições de 2014 para se lançar mais uma vez à Presidência da República, mas seu espaço no partido diminuiu muito desde sua derrota para a presidente Dilma Roussef na eleição de 2010.

Mas a aproximação de Kassab com os petistas ameaçava deixar os tucanos isolados e Alckmin e outros líderes do PSDB passaram a trabalhar para convencer Serra a disputar a prefeitura.
Serra foi prefeito de São Paulo de 2005 a 2006, quando entregou o cargo Kassab, seu vice, e deixou a administração para concorrer ao governo do Estado, embora tivesse prometido ficar na prefeitura até o fim do mandato.

Kassab quer alguém do PSD como vice de Serra na chapa tucana agora, mas o ex-governador teme que isso o afaste do DEM, sigla com a qual o prefeito rompeu há um ano ao criar seu partido.

Folha/ Poder

A China vai perder o fôlego



Quanto mais atrasado um país, mais milagrosa é a sua taxa de crescimento; uma hora, porém, a China terá de parar de imitar e começar a criar, desacelerando 

A China é o exemplo de sucesso do século 21. O país se tornou o maior produtor industrial do mundo no ano passado e, em breve, passará a ter também o maior PIB entre todas as nações, em ambos os casos ultrapassando os EUA. 

Apesar desses resultados espetaculares, o sucesso é perfeitamente explicável e não pode ser considerado um milagre. Ao mesmo tempo, é impossível para qualquer país continuar nesse ritmo por muito mais tempo. É difícil precisar quando exatamente o ritmo vai cair, mas isso é inevitável. 

Um país atrasado tecnologicamente pode conseguir elevadas taxas de crescimento do PIB durante um determinado período. Isso pode ocorrer se existir uma diferença significativa entre a fronteira tecnológica mundial e a desse país. Um exemplo ilustra essa possibilidade.
Ao longo dos anos, a indústria de computadores nos países desenvolvidos desenvolveu novos processadores, passando por 286, 386, 486 e Pentiums, até o Quad Core. 

Um país atrasado, sem acesso a computadores, pode adotar a última tecnologia disponível, sem a necessidade de passar por todas as etapas anteriores. Ele não vai pagar o custo da inovação, mas sim o da imitação, geralmente menor. 

O salto de produtividade é gigantesco em um curto espaço de tempo, assim como o consequente crescimento econômico. Esse salto é maior do que aquele verificado pelos países que foram obrigados a passar por todas as etapas do processo de evolução da tecnologia.
Processo dessa natureza ocorreu com a China quando ela decidiu se integrar à comunidade econômica internacional. Em 2000, ano em que entrou para a Organização Mundial de Comércio (OMC), o seu PIB per capita era de um país de renda baixa, o equivalente a 10% do PIB per capita que os EUA tinham em 1985. 

Demorou somente sete anos para ela passar a ser uma economia de renda média, com o PIB per capita correspondendo a 20% do PIB per capita dos EUA em 1985. 

O Japão e o Brasil, por exemplo, demoraram, respectivamente, 37 e 17 anos para dar o mesmo salto, como mostraram os economistas Stephen Parente e Edward Prescott, que desenvolveram essa ideia de adoção de tecnologia. 

Quanto mais tardiamente um país entra no jogo, mais espetacular será o "milagre".
Assim, é totalmente injusta a comparação do desempenho econômico recente do Brasil com o chinês -ou até mesmo com o indiano, frequentemente utilizado por analistas. 

A colocação desses países no mesmo saco ("Brics") é enganosa. É de se esperar um crescimento mais vigoroso da China, dado o seu estágio de desenvolvimento. Apesar do seu sucesso recente, ela tem ainda um PIB per capita de 70% do brasileiro. 

À medida que a diferença entre os desenvolvimentos tecnológicos da China e da fronteira do mundo se reduz, o mesmo ocorrerá com as suas taxas de crescimento. É verdade que os chineses investem substancialmente em educação e que os pais cobram dedicação dos seus filhos aos estudos. Mas eles vão ter de parar de imitar e vão ter de criar, o que é mais difícil.
Não é surpreendente, portanto, que analistas comecem a tentar prever o inevitável: quando o ritmo econômico do gigante perderá a força. 

Esses exercícios de futurologia são sempre difíceis, mas o certo é que o Brasil, cedo ou tarde, não mais contará com os expressivos ganhos dos termos de troca e com o seu consequente aumento de riqueza, ambos obtidos desde que a China entrou na OMC. O preço em dólares das nossas exportações subiu quase 150% entre 2002 e 2011. 

Aumentos importantes de riqueza terão de ser conquistados. Isso exigirá mais qualidade na educação e na infraestrutura, além de reformas estruturais. Cuidado: a China vai perder o fôlego, e a vida vai ficar um pouco mais difícil. 

EDUARDO DE CARVALHO ANDRADE, 44, doutor em economia pela Universidade de Chicago, é professor do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Alegorias de uma cubana no exílio Para ler fim de semana.


Zoé Valdés se tornou reconhecida como escritora ao dar aos personagens de seus romances vozes de oposição a Fidel Castro. A autora cubana nasceu em Havana em 1959 - alguns meses depois que "el comandante" e Che Guevara retiraram do poder o ditador Fulgencio Baptista. Três décadas mais tarde, exilou-se em Miami e depois em Paris, onde vive até hoje. A sua obra se ambienta entre as suas experiências vividas na ilha e no desterro político. Também traz histórias de amor, encontros e desencontros.

Zoé: "O Todo Cotidiano" se baseia em experiências vividas na Cuba natal, em Miami e Paris
Assim é em "O Todo Cotidiano", recém-lançado no Brasil. O livro reúne o primeiro título de sucesso da autora, "O Nada Cotidiano" (1997), e o inédito "O Tudo Cotidiano". No primeiro, a personagem relata o seu dia a dia em Cuba, as descobertas amorosas, ambições, confusões. Critica o regime sob o qual nasceu. No segundo, fala do exílio nos Estados Unidos e na Europa. E a crítica prossegue.
 
Espécie de alter ego da autora, a narradora e personagem principal é batizada pelo pai com o nome curioso de Pátria. O homem, fervoroso adepto da revolução, se emociona ao saber que, pouco antes de sua filha nascer, Che cobriu a barriga de sua mãe com a bandeira cubana. Depois, ela deu à luz a menina.





Essa seria uma das partes autobiográficas das histórias contadas por Zoé, convidada a vir ao Brasil para a próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Em recente entrevista publicada na internet, ela contemporiza: "O livro é bastante autobiográfico, o personagem tem muito de mim, mas é um romance". De acordo com a autora, a primeira parte tem a ver com um período precário que viveu em Cuba entre 1993 e 1994. A segunda mescla a sua vivência fora do país à de outras pessoas que conheceu.

Na ilha caribenha, Pátria se sente oprimida e sem liberdade. Ela muda de nome e passa a se chamar Yocastra - um híbrido de Jocasta com Cassandra - porque o primeiro homem por quem se apaixona não queria fazer amor com a Pátria. Ele é mais velho, tem pinta de intelectual e escritor de caráter duvidoso. Os dois vivem vários anos juntos e se casam em uma manobra manipulada - até ela descobrir que o marido é uma farsa, um opressor. Adulta, a personagem incorre no mesmo erro em Paris, com consequências ainda mais nefastas.
Tentando fazer uma alegoria com a história que relata, Zoé nomeia esse primeiro marido como Traidor. A maioria dos personagens traz no nome uma carga embutida: a amiga Gusano (verme, na tradução exata; delator, na linguagem figurada em Cuba), o amigo Lince, o amante Niilista, o Inseto Cubano. Aída, a mãe, é reconhecida como "a ida", em razão de um período em que entra em um estado emocional letárgico e sem memória.

Em Paris, reflete o sofrimento que sulca o coração, a psique e as emoções dos exilados. O romance ganha ritmo acelerado, de suspense e surpresas definidoras. Ali Yocastra vive os melhores e últimos anos de sua mãe. Faz amigos e se casa pela segunda vez com um cubano que, mais tarde, surpreenderá para o mal. Infeliz, sonha com a chegada de seu verdadeiro amor, o Niilista, preso político.

"O Todo Cotidiano"

Zoé Valdés Trad.: Ari Roitman e Paulina Wacht Benvirá, 320 págs., R$ 34,90 / BB+