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domingo, 16 de janeiro de 2011

Introdução à economia do novo século



O mundo já não é o mesmo. O nascimento do Facebook pôs o ponto final na nossa vida privada. A Nikon anunciou o fim da produção de sua máquina fotográfica com película. Os Jogos Olímpicos de Pequim exibiram o poder da China no maior espetáculo da Terra. Enfim! O século XXI fez dez anos. 

 Foi uma infância turbulenta marcada por violência e desastres extraordinários. Três mil pessoas perderam a vida no ataque terrorista às torres gêmeas em Nova York (2001). Os EUA e a Inglaterra invadiram o Iraque (2003). O furacão Katrina destruiu Nova Orleans e fez 2 mil vítimas (2005). O mundo entrou em pânico com a possibilidade de que o vírus H1N1 se espalhasse pelo globo (2009). Um terremoto no Haiti fez 200 mil vítimas e o incêndio de uma plataforma de petróleo no Golfo do México transformou-se em gigantesco desastre ambiental (2010).

Aos desastres naturais e à sanha destruidora das guerras no Iraque e Afeganistão somaram-se turbulências econômicas. A Argentina foi à bancarrota em 2002, mas isso não foi nada em comparação com a crise financeira que estourou nos EUA em 2007. O euro, que entrara em circulação nos países da União Europeia em janeiro de 2002, chegou a valer US$ 1,60 em 2008. Mas no fim de 2010 mais da metade dos alemães já alardeava sua nostalgia do marco. E em 2010 Grécia e Irlanda embarcaram na crise financeira, que ainda deve fazer muitos estragos.

Infância turbulenta é presságio de puberdade e adolescência tumultuadas. Você discorda? Não acredita que o futuro está escrito no passado? Pois minha bola de cristal avisa que - com ou sem Facebook, filmes de películas e poderio chinês e ao contrário do que anuncia o primeiro parágrafo - o mundo continua "misericordiosamente o mesmo que era quando Platão era Platão". Para prever o que nos aguarda, basta repetir o que Álvaro de Campos já dizia em 1914:

"A maravilhosa beleza das corrupções políticas. Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos. [...] grandes crimes [...] Adubos, debulhadoras, progressos da agricultura. [...] Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos. [...] Ó artigos inúteis que tanta gente quer comprar. [...] Eh-la-hô recomposições ministeriais!"
Triste? Ora, não se desespere, pois em outra roupagem Fernando Pessoa oferece o remédio na voz de Ricardo Reis:
"Débil como uma haste de papoula
Me suporta o momento. Nada quero."

Nada quero, repita com Pessoa. Mas, se você quer, terá de imaginar tanto as consequências da supremacia da China - a quem pertence a próxima década - quanto os desafios que o envelhecimento populacional vai criar. No curto prazo, terá ainda de prever a sequela da crise financeira que tomou conta do mundo desenvolvido e ameaça o euro.

Para lhe ajudar nessa tarefa, viva o economista! "The Little Book of Economics: How the Economy Works in the Real World" (Wiley, 2010) não é um livro para Ph. Ds. Tem, entretanto, as respostas para as perguntas que lhe fazem tios e primas. Um livro pequeno, que explica como os economistas pensam e a sua importância nas nossas vidas.
Em 2009, a capa da revista "The Economist" mostrava um livro-texto afundando numa poça e comentava: "De todas as bolhas econômicas, poucas estouraram de forma mais espetacular que a reputação da teoria econômica, ela mesma". Greg Ip usa essa citação na introdução de seu livro e logo em seguida repete o comentário de Paul Krugman de que a pesquisa macroeconômica dos últimos 30 anos foi inútil nos melhores dos casos e maléfica nos piores.

Evidentemente, Greg Ip (ou Krugman ou "The Economist") não acreditam que a teoria econômica é imprestável. Estão apenas puxando a sardinha para a própria brasa. Você deve ter ouvido contar que o ex-presidente americano Harry S. Truman uma vez pediu que lhe trouxessem um economista que tivesse uma mão só, porque ele estava cansado dos economistas que respondiam a todas as perguntas dizendo: "On the one hand..., and on the other..." Pronto, com uma ciência assim, se você é o economista de uma mão só, precisa desacreditar a mão de seus colegas.

Mas, na verdade, Ip (que é editor da revista "The Economist"), quando não está fazendo graça, concorda com Mohamed El-Erian - CEO da Pimco, que escreve a introdução ao "Little Book of Economics". El-Erian - que se confessa apaixonado pela ciência econômica desde os 15 anos - argumenta que a economia oferece um arsenal de instrumentos valiosos para pensar sobre muitos tópicos. Para explicar diferentes interações entre indivíduos, empresas e o governo. E para facilitar o entendimento do bem-estar da sociedade e das tendências que definem o mundo em que vivemos.

Escrito em linguagem simples e atraente, "The Little Book" explica as políticas monetária e fiscal. Discute como a psicologia e os bancos centrais comandam os ciclos econômicos. Como os gastos do governo podem ajudar a curar uma recessão ou gerar um desastre. Como uma crise financeira pode transformar uma recessão em depressão. Fala ainda dos efeitos das taxas de fertilidade e da educação para o crescimento econômico. E de por que a deflação é pior do que a inflação.

Isso e muito mais está no livrinho, que inclui algumas observações claras e precisas sobre os mercados financeiros globais e o caso do yuan chinês - que, ao contrário do que ocorre em outros países, pode se manter subvalorizado, sem provocar inflação, porque a China tem controles de capitais, o governo poupa bastante para comprar ativos externos e o rápido crescimento da produtividade acompanha o crescimento salarial.

Lá está ainda a razão pela qual o dólar não é o problema dos EUA, mas sim do resto do mundo. Com certeza, num dia ainda muito, muito distante, o dólar perderá o status que hoje tem, à medida que a importância dos EUA diminuir. Mas, por enquanto, não tem rival. Para os banqueiros centrais, manter suas reservas em yuans (enquanto a China tiver controles de capital) seria como manter nossa poupança na forma de milhagens de uma companhia aérea. O euro não seria melhor. Basta considerar o risco de a Grécia abandonar o euro e tentar servir a dívida externa em dracmas.

Ip observa também que mais inevitável que as crises é o fracasso em prevê-las. Paul Samuelson costumava brincar dizendo que o mercado de ações previu nove das últimas cinco recessões. As previsões são ruins, porque cada crise é diferente da anterior. Isso, apesar de terem traços comuns e amplamente documentados desde 1340, quando Eduardo III da Inglaterra declarou a moratória e levou à bancarrota os banqueiros florentinos, que tinham financiado sua guerra contra a França. O pior é que, enquanto numa economia normal a redução de preços atrai compradores e corrige o excesso de oferta, numa crise a redução de preços provoca mais vendas e a agrava.

Nem todas as bolhas levam a crises. Para haver crise, é preciso que haja "leverage", isto é, muita dívida em relação aos ativos. O crescimento do endividamento (privado ou público) é o principal suspeito no advento de uma crise e seus parceiros são os descasamentos cambiais e de prazo. As crises se espalham por contágio: os investidores prejudicados por uma companhia (ou país) fogem daquelas (ou daqueles) que se parecem com ela (ou com ele). Um banco que vai à bancarrota arrasta consigo os outros com os quais tinha negócios e o contágio transforma problemas de liquidez em problemas de solvência.

Se você não é aluno de economia, pode se dar ao luxo de esquecer os pesados livros de introdução utilizados nas universidades, que deixam de lado a discussão de temas correntes para se concentrar em princípios teóricos. E, no lugar deles, pode ler "The Little Book of Economics", que vai direto ao assunto que interessa aos leitores de jornais. Pena que as instituições e os exemplos ali discutidos sejam todos da economia americana. O leitor brasileiro merecia um livro de igual conteúdo, mas em que a instituição em foco fosse nosso Banco Central (em vez do Fed) e a discussão da política fiscal se desse em torno do mecanismo de elaboração, discussão e aprovação dos nossos orçamentos (no lugar dos processos que caracterizam a política fiscal americana).

Eliana Cardoso, economista, escreve semanalmente neste espaço, alternando resenhas literárias (Ponto e Vírgula) e assuntos variados (Caleidoscópio). 
http://www.valoronline.com.br/

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