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domingo, 22 de abril de 2012

Bioindústria do Pará em Foco


Bioindústria, o diferencial competitivo da natureza paraense

Gonzalo V. Enríquez[1]
A Amazônia representa uma das maiores fontes de recursos naturais, além de ser um dos três patrimônios naturais mais importantes do planeta. Os outros são os mares profundos, sem uma governança ainda definida, e o território antártico, compartilhado entre diversas nações. Assim, a Amazônia é a única grande reserva da natureza que pertence, em sua maior parte, a um único país – o Brasil. Também, a Amazônia é uma das regiões mais cobiçadas no mundo pela riqueza da sua biodiversidade.
É sabido que o atual modelo econômico vigente na Amazônia não tem contribuído para o seu dinamismo econômico sustentável, nem para uma melhor distribuição de renda, a partir do benefício econômico gerado. No caso do Pará, o estado precisa de uma verdadeira transformação do conhecimento e mudança da sua base produtiva. Afinal, nos caracterizamos por ser meramente um exportador de matérias primas, sem valor agregado. Os recursos minerais representam mais US$ 16 bilhões (90%), e deixa o setor madeireiro com quase US$ 400 milhões (2%) e os produtos da biodiversidade ou chamados produtos florestais não madeireiros (PFNM) com pouco mais de US$ 32 milhões (0,18%) do valor das exportações do Estado (Gráfico abaixo).
O maior desafio consiste em alterar esse quadro perverso de exploração predatória dos recursos naturais e ampliar a participação da biodiversidade nas exportações paraenses. Um modelo diferente é necessário para dar valor à floresta e aproveitar a biodiversidade de forma sustentável. Para que isso aconteça se faz necessário transformar os recursos da biodiversidade em produtos com valor agregado e, a inovação tecnológica é a principal ferramenta para que esse processo aconteça.
Entretanto, nossa capacidade científica e tecnológica ainda é extremamente frágil, fragmentada e pouco consolidada. São escassas as experiências de sucesso de empresas que exploram comercialmente a biodiversidade e que representem uma contribuição à economia do Estado.
Conhecemos apenas mostras de pequenas empresas, incubadoras e parques tecnológicos, que são protótipos que mostram a transformação da biodiversidade em produtos com alto valor agregado, mas com pouca expressão na economia paraense. Para transformar essa realidade é fundamental a criação de uma bioindústria paraense, de dar escala aos produtos da biodiversidade, alterando a base produtiva do Estado com produtos de alto valor agregado, como são os perfumes, óleos naturais e essenciais e remédios naturais, os que são altamente demandados nos países desenvolvidos.
A floresta tem valor e pode ser alto e muito rentável, mas é preciso demonstrar que ela pode valer mais como floresta em pé que derrubada, principalmente pelas enormes possibilidades de incorporação de tecnologia e criação de bioindústrias, para produzir produtos com alto valor agregado, remédios e produtos da cosmetologia (cosméticos e dermocosméticos), bem como fitoterápicos, óleos essenciais e alimentos. Esse é o verdadeiro valor estratégico da natureza e que a Amazônia pode oferecer para o mercado mundial.
Assim o confirmam as inúmeras empresas que são verdadeiros cases de sucesso no planeta e que usam insumos da biodiversidade da nossa região. Produtos como copaíba, andiroba, o tradicional óleo de castanha-do-pará que ganham escala em insumos de produtos de beleza, como óleos naturais para massagens, sabonetes óleos essenciais para perfumes e em geral cosméticos, que contam com maior valor agregado que commodities como o ferro, a soja e a madeira, exportados com escasso valor agregado e que contribuem muito pouco com a sustentabilidade do Pará (criação de empregos, renda e preservação do meio ambiente).
Mas, o que está faltando para que a biodiversidade, não apenas tenha um valor potencial e sim consiga alcançar os mercados internacionais? Parte da resposta pode estar na tecnologia, mais especificamente na inovação tecnológica nos produtos da biodiversidade, processo que acontece, precisamente, na indústria. E no caso da exploração da biodiversidade, esse processo acontece na bioindústria. Daí que a bioindústria é um mecanismo essencial para realizar inovação tecnológica e agregar valor aos produtos da biodiversidade.
Apesar de que já existem experiências pilotos de pequenas bioindústrias, em incubadoras e parques tecnológicos, que se relacionam com universidades e centros de pesquisa, o Estado deve transformar esses cases de sucesso, em políticas públicas e dar escala à produção da biodiversidade, caso contrário, continuaremos sendo uma região rica em biodiversidade e em matérias primas e, no entanto, exportando produtos com baixo valor agregado, commodities.
Para dar escala à aos produtos da biodiversidade é fundamental criar um novo conceito de produção sustentável, implantar complexos industriais, dos segmentos empresariais voltados à exploração da biodiversidade. Esses complexos devem contar com políticas públicas, incentivos de investimentos tecnológicos e de gestão e operação para sua implantação, além de apoios das instituições de desenvolvimento que atuam na região Amazônica e no Estado do Pará. Nesta perspectiva, a indústria da biodiversidade poderá absorver as inovações tecnológicas de forma compartilhada e agregar valor à biodiversidade, uma das questões fundamentais para que a floresta consiga produzir para uma demanda cada vez mais crescente de produtos oriundos da Amazônia e, nesse arranjo inteligente, a região deixe de ser apenas fornecedora de matéria-prima, exporte valor agregado, alavanque empregos e distribua renda internalizando os lucros da biodiversidade.


[1] Economista. Mestre em Política científica e Tecnológica (UNICAMP), Doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB), Docente da UFPA

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