O mercado termina 2015 mais pessimista em relação às
perspectivas do minério de ferro para o ano que vem. Bancos e consultorias
estão revendo as projeções dos preços para a commodity em 2016 e em horizonte
mais à frente (2017 e 2018). Os analistas preveem um preço médio próximo de US$
40 por tonelada em 2016 para o minério com 62% de teor de ferro colocado na
China. A estimativa representa queda de 20% em relação aos cerca de US$ 50 por
tonelada estimados anteriormente por diversos bancos.
A maior cautela de analistas e investidores tem como
pano de fundo o difícil momento vivido pelas mineradoras, inclusive as grandes
(Vale, Rio Tinto e BHP) em um ambiente marcado por sobre oferta da commodity no
mercado internacional, demanda fraca na China e preços em queda. Desde 2011, os
preços do minério de ferro caíram cerca de 80% e situam-se hoje na faixa dos
US$ 40 por tonelada no mercado à vista da China, o grande consumidor de
matérias-primas minerais e metálicas. O minério de ferro, assim como o carvão
metalúrgico, e os metais (cobre, níquel) são usados como insumos na produção de
aço.
No atual cenário, novos cortes na produção de
minério de ferro são importantes para garantir um maior equilíbrio entre oferta
e demanda, abrindo espaço à frente para alguma recuperação nos preços, dizem
analistas. Mas as estimativas para 2016 não são encorajadoras uma vez que o
fechamento de capacidades de produção deve praticamente compensar a entrada em operação
de novas minas.
Há estimativas de que o fechamento de minas deva
atingir volumes entre 50 milhões e 60 milhões de toneladas no ano que vem,
incluindo capacidades de maior custo na China e produtores menores
("juniors companies") na Austrália, além do efeito da exaustão global
("depletion") de minas antigas em operação. Ao mesmo tempo, pode
haver aumento na oferta global da ordem de 60 milhões a 70 milhões de toneladas
garantida pelas mineradoras australianas Roy Hill, RioTinto e BHP, estimou em
relatório a corretora Itaú BBA.
"Precisamos ver mais capacidades de produção
saindo do mercado. Mas a pergunta é: em que nível de preço essas capacidades
vão deixar o mercado?", disse Laura Brooks, analista sênior da consultoria
britânica CRU. A empresa está revendo estimativas, mas considera que o preço da
commodity poderá ficar em um patamar médio entre US$ 35 e US$ 45 por tonelada
no ano que vem. A lógica é que com o preço abaixo de US$ 40 por tonelada mais
minas devem sair do mercado, o que ainda não se materializou. "Isso nos
deixa mais cautelosos", disse Laura.
Segundo ela, se for considerado um preço médio de
US$ 35 por tonelada no ano que vem, 80% do minério de ferro negociado no
mercado transoceânico ainda vai gerar caixa. "Muitos produtores são
vulneráveis aos atuais níveis de preços, mas como tratase de um mercado
concentrado e os grandes produtores operam com baixo custo significa que as
'majors' [Vale, BHP, Rio Tinto e inclusive a também australiana FMG] operam com
geração positiva de caixa mesmo com o minério a US$ 35 por tonelada",
disse Laura.
Na visão da CRU, os preços do minério de ferro
caíram a níveis suficientemente baixos para acionar respostas pelo lado da
oferta. A consultoria afirmou que a Anglo American deve reduzir a produção da
mina de Kumba, na África do Sul, em 10 milhões de toneladas no ano que vem. A
australiana BC Iron, por sua vez, vai parar a mina de Nullagine, na Austrália.
Em contraste, a Roy Hill, da bilionária Gina Rinehart, fez os primeiros
embarques de minério de ferro adicionando novos volumes a um mercado 21/12/2015
Analistas reveem preço do minério para US$ 40 em 2016 | Valor Econômico
http://www.valor.com.br/empresas/4365572/analistasreveemprecodominerioparaus40em2016
2/2 sobreofertado.
A maior cautela de bancos e consultorias em relação
ao mercado de minério de ferro considera uma desaceleração na demanda da China
por matériasprimas. Esse movimento é resultado de uma menor produção de aço
esperada para o ano que vem pelas siderúrgicas chinesas. Nesse ambiente, o
minério de ferro e o carvão metalúrgico permanecem como as commodities mais
expostas a novas baixas, disse o Credit Suisse em relatório. O banco projetou
que no segundo semestre do ano que vem a cotação do minério de ferro pode bater
em US$ 35 por tonelada.
Ao mesmo tempo, o banco previu recuperação nos
preços no primeiro semestre de 2016, quando as cotações podem voltar
provisoriamente a US$ 50 por tonelada em movimento impulsionado pela redução
dos estoques já no fim deste ano e por questões sazonais a demanda por aço da
construção civil na primavera chinesa. Mas no segundo semestre do ano que vem
os preços devem voltar a cair considerando a sobreoferta da commodity, uma
produção sazonal de minério de ferro mais forte e uma fraca produção de aço no
mundo.
O Credit Suisse foi uma das instituições financeiras
que reduziram suas projeções para os preços das commodities, incluindo o
minério de ferro. O banco prevê que na média de 2016 o minério com 62% de teor
de ferro colocado na China possa ficar em US$ 41 por tonelada, em média, ante
uma projeção anterior de US$ 46 por tonelada, também em média (ver tabela).
Outros bancos também cortaram suas projeções para a
commodity no ano que vem: o Itaú BBA reduziu sua estimativa de US$ 50 para US$
40 por tonelada considerando um maior fornecimento de minério de ferro pela
Austrália, a redução na produção chinesa de aço e o recente aumento dos
estoques da matériaprima nos portos chineses. Santander, Bradesco, HSBC e
Goldman Sachs são outros bancos que reviram suas projeções para o minério de
ferro para patamares médios entre US$ 40 e US$ 50 por tonelada no ano que vem.
O mau humor do mercado em relação às perspectivas
para o minério de ferro é expressa também em uma pesquisa que a Goldman Sachs
fez com investidores na conferência global do banco sobre metais e mineração,
em Nova York, no começo do mês, da qual participaram 32 empresas. Os
investidores foram perguntados sobre qual é o preço médio que esperam para o
minério de ferro colocado na China em 2016 em comparação aos preços registrados
na ocasião no mercado à vista chinês, na faixa de US$ 45 por tonelada. Para a
maioria dos entrevistados (58%), o preço médio da commodity deve ficar em
patamar entre US$ 40 e US$ 50 por tonelada no ano que vem. Apenas 6% projetaram
preço entre US$ 50 e US$ 60 por tonelada na média de 2016.
Boa parte dos entrevistados (41%) previu que a
produção de aço na China vai cair mais de 2% no ano que vem. O crescimento
chinês é por sua vez a maior preocupação da maioria dos entrevistados (64%) em
2016. O Goldman Sachs prevê que os preços caíam para US$ 44 por tonelada em
2016 e para US$ 40 por tonelada em 2017.