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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Economia - Brasil cansou de ser emergente



O Brasil irá organizar a Copa do Mundo de futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Muitos analistas, ao comentar as votações dos membros do Comitê Olímpico Internacional em Copenhague, na sexta-feira passada, destacaram que, mais que as características técnicas do projeto olímpico do Rio de Janeiro, se premiou a situação geoestratégica brasileira (serão jogos de todo um continente, a América Latina) e a pujança econômica ascendente desse gigantesco país cada vez mais emergente e menos terceiro-mundista.

Se isso fosse assim, tratar-se-ia de uma manifestação muito plástica do deslocamento do poder no mundo dos Estados Unidos, da Europa e do Japão para as novas realidades emergentes. Apenas dois dias antes, o G-20, reunido em Pittsburgh, havia enterrado o clube dos oito países mais ricos do mundo (G-8) e o substituiu por outro em que estão presentes os principais países em decolagem, Brasil, Rússia, Índia e China (BRIC). No ponto 18 da Declaração de Pittsburgh se diz: “Designamos o G-20 para ser o principal fórum da nossa cooperação econômica internacional. Estabelecemos o Fórum de Estabilidade Financeira para incluir assim as principais economias emergentes e dar as boas-vindas aos esforços para coordenar e supervisionar programas de fortalecimento da regulação financeira”.

Conscientes de seu novo papel no mundo, faz apenas três meses que os países BRIC se constituíram em um novo fórum de defesa de seus interesses. Os dirigentes dos quatro países citados se reuniram em Ekaterimburgo (Rússia) e colocaram sobre a mesa seu formidável potencial: representam quase a metade da população mundial, um quarto do PIB mundial, 40% de toda a superfície, e 65% de todo o crescimento destes anos. O disímil destas porcentagens manifesta a desigualdade no mundo, que os emergentes denunciam com a sua simples presença. Os BRIC querem ter representação na direção do Fundo Monetário Internacional (sempre europeia) ou do Banco Mundial (sempre norte-americana), pretendem mudar o funcionamento do Conselho de Segurança da ONU, e inclusive fazem tentativas para o que seria uma verdadeira revolução monetária no mundo, da qual se fala cada vez mais: a substituição do dólar como moeda de reserva mundial e sua substituição por uma cesta de moedas, mais além da divisa norte-americana e do euro.

Mas Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, quer ir mais longe. Quando foi eleito para um segundo e último mandato (por enquanto suportou melhor que outros presidentes latino-americanos a tendência irresistível de mudar a Constituição para poder ser reeleito ao menos mais uma vez), declarou: “Estamos cansados de ser uma potência emergente”. Ou seja, quer que o Brasil passe à categoria de país desenvolvido, sem retroceder. Esta ambição o fará passar à história. Nos sete anos que está na presidência, Lula fez avançar muito o seu país: sairá da recessão no pelotão de frente (no segundo trimestre de 2009, o PIB já cresceu); suas porcentagens de crescimento ao longo do período foram muito superiores aos das duas décadas anteriores; a pobreza extrema foi reduzida de 35% em 2001 para 24,1% em 2008; quatro milhões de cidadãos deixaram a linha da pobreza e se incorporaram a classes médias que já superam 50% da população total… O lado obscuro desses mesmos números indica tudo o que ainda resta por fazer em matéria de desigualdade, pobreza, insegurança cidadã, poluição ambiental, corrupção e, como refletia nestas mesmas páginas o pesquisador Clóvis Brigagao, “uma baixa institucionalidade política”.

Em termos de progresso e bem-estar não há dúvida de que Lula e seu predecessor, Fernando Henrique Cardoso, foram muito positivos para o Brasil, cuja economia é a 9ª maior do mundo (maior que a espanhola), mas cujo potencial de crescimento - ajudado pelo maná das gigantescas reservas de petróleo submarinas, recentemente descobertas - pode ajudá-la a escalar, no prazo de uma década, à quinta ou sexta posição do planeta.

O futuro do Brasil, com suas luzes e sombras, determinará sem dúvida o futuro da América Latina, já que sua economia é nada menos que a metade da região.

* A reportagem é de Joaquín Estefanía e está publicada no jornal El País, 5-10-2009. A tradução é do Cepat.

Fonte: IHU On-line
Envolverde

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