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domingo, 28 de abril de 2013

Mais atraso da Inovação Tecnológica no Brasil

Os NITs estão morrendo, diz presidente do Fortec

Além de aporte de recursos, é imprescindível para os NIT autonomia e flexibilidade necessárias para a realização da missão de proteger o conhecimento nas ICT e promover a transferência para o setor empresarial.

Há nove anos anos, a Lei da Inovação (n° 10.973/2004) implementou os Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs). Neste período, essas instituições passaram a desenvolver novas funções, além de serem interlocutoras entre universidades e empresas. Hoje, elas também são responsáveis por fomentar a criação de spin-offs e startups, fruto de processos inovadores desenvolvidos no meio acadêmico.


Em entrevista, o presidente do Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia (Fortec), Rubén Sinisterra, faz um diagnóstico sobre o setor e afirma: sem políticas públicas efetivas, os NITs vão fechar as portas.

Rubén Sinisterra.
 Foto: Bruno Spada/Tripé Foto

Qual foi o principal avanço do setor nos últimos anos? 

Estamos fazendo patentes com mais qualidade do que há seis ou sete anos, quando começamos esse processo. Hoje, nós temos casos de sucesso, exemplos dos mais diversos e criativos. Eles chamam a atenção internacional pela riqueza da cultura brasileira, pelo “jogo de cintura” e por estar no mesmo nível dos países mais avançados.

As transferências de tecnologia e os depósitos de patentes, duas das principais atribuições dos NITs, estão trilhando as metas desejadas pelo setor?

Os processos de transferência de tecnologia ainda não acontecem com a densidade e intensidade que o País precisa. Uma solução, por exemplo, tem sido o estímulo para a criação das startups e spin-offs. Neste papel, conseguimos auxiliar na geração de riqueza, renda e emprego para a sociedade. Esta é uma forma contemporânea de prestarmos contas, de sermos mais transparentes e de mostrar que nós estamos aqui.

O que falta aos NITs para poderem atuar de maneira plena e conseguir desempenhar o papel pelo qual foi criado?

É fundamental entender que o trabalho desempenhado por eles não pode ter a mesma velocidade dos desenvolvidos nas universidades. Se pretendemos que a transferência de tecnologia e o conhecimento das nossas universidades não fiquem engavetados, precisamos dar mais autonomia aos NITs.
É fundamental a contratação de funcionários de carreira. Hoje, os núcleos são estruturados com bolsistas que permanecem no máximo por 36 meses. Na maior parte das vezes, quando estão totalmente treinados, eles saem. A volatilidade é grande e as bolsas muitas vezes também não são atrativas.

Em palestras o senhor comenta que só aprenderemos fazendo. O que o senhor quis dizer?

Essa frase é profunda. Ela voltou à minha cabeça no período que fiquei no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, sigla em inglês). Percebi que nos Estados Unidos há poucas regras e elas são claras e fáceis. Acredito que gastamos muito tempo nos diagnósticos. Nós somos “overdiagnosticados”, ou seja, temos diagnósticos no País para tudo. Devemos ser um pouco mais ousados dentro dos marcos regulatórios.

Para o senhor o medo de arriscar está conectado ao arcabouço legal?


Eu diria que vem de tudo. É algo cultural. Nós temos a cultura do acumular de mais e fazer de menos. Acho que a gente vai ter que voltar ao processo de ir fazendo e aprendendo. Isso ocorre até no processo de transferência de tecnologia. Por vezes, coloca-se como mais importante o negócio mais rentável. No MIT, a finalidade lucrativa nem sempre é um diferencial.

Os casos de sucesso das diferentes regiões brasileiras revelam que é possível trabalhar dentro do arcabouço legal que nós temos. Só nos falta ousadia.

Como estimular essa ousadia? 

Infelizmente não existe uma fórmula específica. Precisamos de advogados para nos falar como é que pode. Temos que sair da cultura do não. Dessa forma, simplesmente nada acontece. É preciso estabelecer onde queremos chegar para definirmos como fazer.

Faltam políticas públicas para estimular os Núcleos de Inovação Tecnológica?

Percebo que só agora estamos voltando a ter continuidade nos esforços. Os NITs, por lei, têm que ser fomentados por políticas públicas. O último edital que saiu foi em 2008. Isto significa falta de continuidade dos esforços. Um corpo que você não alimenta, morre. E se ele morre, teremos que começar os trabalhos do início. Isto impede o avaço mesmo com o acúmulo de conhecimento.
A formação de recursos humanos no Brasil é um exemplo claro de que investimentos constantes dão resultado. Nós veríamos resultado dos NITs com recursos contínuos em cinco ou dez anos. Os NITs estão morrendo e vão morrer. São necessárias políticas públicas para mantê-los vivos.

Escrito por Leandro Duarte

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